{"id":57905,"date":"2018-06-28T10:09:17","date_gmt":"2018-06-28T13:09:17","guid":{"rendered":"http:\/\/anoticiaonline.com.br\/site\/?p=57905"},"modified":"2018-06-28T10:09:17","modified_gmt":"2018-06-28T13:09:17","slug":"os-valores-do-falecido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anoticiaonline.com.br\/site\/os-valores-do-falecido\/","title":{"rendered":"OS VALORES DO FALECIDO"},"content":{"rendered":"<p>Adellunar Marge<\/p>\n<p>N\u00e3o existe nada que suplante a beleza e a pujan\u00e7a da vida. No samba \u201c O que \u00e9, o que \u00e9\u201d, Gonzaguinha expressa bem esse sentimento de apre\u00e7o pela exist\u00eancia, aconselhando \u201cviver e n\u00e3o ter a vergonha de ser feliz\u201d. Mas justamente esse apego \u00e0 vida que faz o ser humano e todos os animais lutarem desesperadamente por ela, carrega consigo a mais antiga das preocupa\u00e7\u00f5es, que \u00e9 a eterna luta contra a morte. A morte sempre foi o tormento dos vivos e um mist\u00e9rio insol\u00favel. Em todas as \u00e9pocas e em todos os povos, essa \u201cindesejada das gentes\u201d, como dizia Bandeira, espreita os homens com a sua foice afiada esperando a hora de lev\u00e1-lo, n\u00e3o se sabe para onde. Dilacerados pela inquietante d\u00favida, os homens idealizam os mais diversos destinos, e na impossibilidade de eternizarem-se na mat\u00e9ria, idealizam-se eternos em uma dimens\u00e3o al\u00e9m do corpo, onde n\u00e3o possam mais ser tocados pela tal indesejada das gentes.<\/p>\n<p>Na Gr\u00e9cia antiga costumava-se colocar moedas nos olhos de um falecido numa tentativa de agradar o Barqueiro Caronte, que atravessaria a alma do morto para o outro lado do rio Estige, onde o falecido, de acordo com as suas a\u00e7\u00f5es em vida, encontraria o seu destino de permanecer nas del\u00edcias dos \u201cCampos El\u00edsios\u201d ou na escurid\u00e3o do Hades profundo ou ainda \u00a0retornar em um novo corpo para uma nova oportunidade existencial. Essas destina\u00e7\u00f5es ap\u00f3s a morte, com ligeiras modifica\u00e7\u00f5es, sempre fizeram parte do universo de cren\u00e7as das mais importantes religi\u00f5es ou linhas espiritualistas no mundo.<\/p>\n<p>Jamais foi dada a algu\u00e9m a certeza absoluta, eu digo uma certeza cartesiana, da exist\u00eancia de outras dimens\u00f5es al\u00e9m desta. Quaisquer afirma\u00e7\u00f5es a respeito sempre t\u00eam por base o campo da f\u00e9. Por isso, um dos mandamentos existenciais mais seguidos passou a ser aquele pregado pelos romanos: \u201cCarpe Diem\u201d, aproveitem os dias da sua vida, desfrutando ao m\u00e1ximo dos momentos agrad\u00e1veis que a vida oferece. E as alegrias n\u00e3o est\u00e3o apenas em grandes contentamentos, mas se escondem nos pequenos momentos do dia-a-dia que muitas vezes deixamos passar despercebidos e n\u00e3o os desfrutamos.<\/p>\n<p>Um dia morreremos, sem d\u00favida e todos (ou quase todos) dir\u00e3o que fomos bons, falar\u00e3o das nossas qualidades, algumas que nunca tivemos ou pelo menos em t\u00e3o grandes propor\u00e7\u00f5es. Afinal, o defunto, j\u00e1 desprovido de suas fun\u00e7\u00f5es, como a pr\u00f3pria etimologia do seu nome indica, ser\u00e1 incapaz de fazer mais algum ato contest\u00e1vel. Por isso nomeiam-lhe defunto, do latim \u201cdefunctus\u201d ou seja, sem fun\u00e7\u00e3o, desprovido de quaisquer fun\u00e7\u00f5es vitais e, \u00e9 claro, morais. Sai do complicado campo da moralidade para o confort\u00e1vel campo da amoralidade. \u00c9 claro que em nosso vel\u00f3rio falar\u00e3o apenas das nossas qualidades e nossos defeitos ser\u00e3o momentaneamente esquecidos pelos amigos. \u00c9 que a \u201cindesejada das gentes\u201d j\u00e1 traz dissabores demais aos que ficaram al\u00e9m de punir irremediavelmente o que se foi com a morte f\u00edsica e com a incerteza do seu destino. Assim, aflora um sentimento de compensa\u00e7\u00e3o pela perda, uma esp\u00e9cie de medalha de m\u00e9rito p\u00f3stuma.<\/p>\n<p>Por essas e outras incertezas, continua oportuno o mandamento latino do \u201cCarpe Diem\u201d e o que tivermos que fazer por algu\u00e9m devemos faz\u00ea-lo em vida e n\u00e3o depois que ele se chamar saudade.<\/p>\n<p>Nelson Cavaquinho (1911-1986), o grande sambista carioca, em um dos seus sambas magistrais \u201cQuando eu me Chamar Saudade\u201d, afirma com imensa sabedoria: \u201csei que amanh\u00e3 quando eu morrer os meus amigos v\u00e3o dizer que eu tinha bom cora\u00e7\u00e3o\u201d e continua \u201c&#8230;por isso \u00e9 que eu penso assim, se algu\u00e9m quiser fazer por mim que fa\u00e7a agora. Me d\u00ea as flores em vida, o sorriso, a m\u00e3o amiga&#8230;\u201d.<\/p>\n<p>Quase sempre h\u00e1 mais filosofia na letra de alguns sambas do que nas c\u00e1tedras de uma Universidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Adellunar Marge N\u00e3o existe nada que suplante a beleza e a pujan\u00e7a da vida. No samba \u201c O que \u00e9, o que \u00e9\u201d, Gonzaguinha expressa bem esse sentimento de apre\u00e7o pela exist\u00eancia, aconselhando \u201cviver e n\u00e3o ter a vergonha de ser feliz\u201d. 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