{"id":46704,"date":"2017-11-30T16:20:48","date_gmt":"2017-11-30T19:20:48","guid":{"rendered":"http:\/\/anoticiaonline.com.br\/site\/?p=46704"},"modified":"2017-11-30T16:20:48","modified_gmt":"2017-11-30T19:20:48","slug":"tormentos-de-antigamente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anoticiaonline.com.br\/site\/tormentos-de-antigamente\/","title":{"rendered":"Tormentos de antigamente"},"content":{"rendered":"<p>Adellunar Marge<\/p>\n<p>\u00c9 muito dif\u00edcil algu\u00e9m n\u00e3o ter medo de tomar inje\u00e7\u00f5es. Muitas pessoas dizem que n\u00e3o t\u00eam, obviamente mentem. S\u00f3 pela maneira como prendem a respira\u00e7\u00e3o na hora da agulhada ou na conversa puxada\u00a0 com o aplicador, com a inten\u00e7\u00e3o justamente de desviar a aten\u00e7\u00e3o, mostra, se n\u00e3o um medo, pelo menos um certo inc\u00f4modo interior ao enfrentar a agulha.<\/p>\n<p>Assim \u00e9 nas inje\u00e7\u00f5es comuns ou na hora de \u201ccolher\u201d sangue para exame. No laborat\u00f3rio onde fa\u00e7o meus exames de sangue eu fico observando a fisionomia daqueles que esperam a sua vez, lendo revistas, conversando com o parceiro ao lado, mas com o esp\u00edrito atento ao momento da agulhada. Ser\u00e1 que v\u00e3o achar a veia da primeira vez?<\/p>\n<p>A Medicina progrediu muito nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Poderosos f\u00e1rmacos foram desenvolvidos, assim como os exames laboratoriais para o diagn\u00f3stico dos mais diversos males, mas o g\u00eanio humano ainda n\u00e3o foi capaz de abolir a agulha e certos procedimentos invasivos que invadem n\u00e3o s\u00f3 o nosso corpo, mas o nosso interior, devastando os nossos medos.<\/p>\n<p>Nos meus tempos de crian\u00e7a a coisa era ainda bem pior. Quando se adquiria uma infec\u00e7\u00e3o qualquer, se receitava penicilina, que \u00e0quela \u00e9poca vinha em p\u00f3 dentro de um vidrinho com tampa de borracha e deveria ser dissolvida na \u00e1gua destilada que vinha em uma ampola de vidro. Esse medicamento era injetado normalmente de tr\u00eas em tr\u00eas horas. Como eram muitas agulhadas por dia, ia-se alternando as agulhadas na n\u00e1dega direita, na esquerda, no bra\u00e7o esquerdo e no direito. Mas existia coisa ainda pior para o horror das crian\u00e7as. Era quando o m\u00e9dico receitava inje\u00e7\u00f5es de bismuto&#8230; amarelas e oleosas. Essas, sim, do\u00edam demais e necessitava-se de \u201ccompressas\u201d de panos embebidos em \u00e1gua quente para dissolver o produto no local da aplica\u00e7\u00e3o e reduzir a dor.<\/p>\n<p>Um dos grandes aplicadores de inje\u00e7\u00f5es em meus tempos de crian\u00e7a era o famoso farmac\u00eautico Paschoal Bernardino Felipe, ou \u201cS\u00f4 Bernardino\u201d, como era referido. Normalmente a gente era imobilizado por pessoas da fam\u00edlia na hora da aplica\u00e7\u00e3o, com o farmac\u00eautico falando:<\/p>\n<p>&#8211; Fique quieto..! Se mexer a agulha quebra l\u00e1 dentro e vai ter que rasgar&#8230;! (rasgar seria uma incis\u00e3o com bisturi para retirar o tal peda\u00e7o da agulha) \u00c9 claro que a crian\u00e7a podia at\u00e9 chorar, mas na hora da agulhada ficava im\u00f3vel, pois o medo do bisturi era ainda maior.<\/p>\n<p>A \u201cFarm\u00e1cia Paschoal\u201d, do senhor Bernardino, ficava \u00a0ali na rua que tem o seu nome, atr\u00e1s da Pra\u00e7a Jo\u00e3o Pinheiro, era uma das mais importantes da regi\u00e3o. Naquela \u00e9poca os m\u00e9dicos colocavam na receita as f\u00f3rmulas da maior parte dos rem\u00e9dios que receitavam e a farm\u00e1cia procedia \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o. A Farm\u00e1cia Paschoal possu\u00eda grandes potes de cer\u00e2mica, com decora\u00e7\u00f5es coloridas, onde eram guardados os sais e outros componentes para a manipula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas o famoso farmac\u00eautico desempenhava tamb\u00e9m um papel importante na educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as, pois quando faz\u00edamos alguma \u201carte\u201d, como andar na chuva brincando com barquinhos de papel nas enxurradas, nossas m\u00e3es diziam, em tom de amea\u00e7a:<\/p>\n<p>&#8211; Saia da chuva, se n\u00e3o, vou levar voc\u00ea no s\u00f4 Bernardino para tomar inje\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Movida pelo medo, a obedi\u00eancia era imediata. Essa pedagogia, comum naquela \u00e9poca, muitas vezes cristalizou os medos de agulha na vida adulta.<\/p>\n<p>Ter infec\u00e7\u00e3o de garganta naquela \u00e9poca era um tormento. \u00c9ramos levados ao consult\u00f3rio do saudoso Dr. Evaristo ou na Farm\u00e1cia do Senhor Bernardino, para se fazer \u201cembroca\u00e7\u00e3o\u201d. Munido de um raio de bicicleta com uma mecha de algod\u00e3o embebida em uma solu\u00e7\u00e3o de iodo na ponta, esfregava-se as paredes mais profundas da garganta duas ou tr\u00eas vezes por semana. O tratamento era eficaz, mas al\u00e9m, de doloroso e inc\u00f4modo, ainda provocava v\u00f4mito.<\/p>\n<p>Ainda bem que certas coisas ficam no passado. J\u00e1 pensou se hoje ainda tiv\u00e9ssemos de enfrentar inje\u00e7\u00f5es de bismuto, embroca\u00e7\u00f5es e os motores a pedal dos dentistas&#8230;?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Adellunar Marge \u00c9 muito dif\u00edcil algu\u00e9m n\u00e3o ter medo de tomar inje\u00e7\u00f5es. Muitas pessoas dizem que n\u00e3o t\u00eam, obviamente mentem. 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