{"id":4660,"date":"2015-10-09T00:06:09","date_gmt":"2015-10-09T03:06:09","guid":{"rendered":"http:\/\/anoticiaonline.com.br\/site\/?p=4660"},"modified":"2015-10-09T00:06:09","modified_gmt":"2015-10-09T03:06:09","slug":"uma-canaria-muito-estranha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anoticiaonline.com.br\/site\/uma-canaria-muito-estranha\/","title":{"rendered":"Uma can\u00e1ria muito estranha"},"content":{"rendered":"<p>Houve um tempo em que era muito comum a cria\u00e7\u00e3o e a manuten\u00e7\u00e3o de p\u00e1ssaros em gaiolas. As leis e o sentimento humano ainda n\u00e3o disciplinavam essas transgress\u00f5es. Sabi\u00e1s, coleirinhos, melros e can\u00e1rios-da-terra eram aprisionados em gaiolas toscas ou elegantes, sem direito a alvar\u00e1s de soltura. Capturados em arapucas ou al\u00e7ap\u00f5es, os p\u00e1ssaros passavam a residir naquelas gaiolas, para deleite e satisfa\u00e7\u00e3o dos donos. \u201cDonos\u201d da sua liberdade e do seu destino.<\/p>\n<p>Sabi\u00e1s, coleiros, melros e trinca-ferros destinavam-se ao canto e, daquelas gaiolas de grades instranspon\u00edveis, na impossibilidade de lan\u00e7arem o seu voo, lan\u00e7avam a sua melodia. Para os donos, um canto de ostenta\u00e7\u00e3o, para eles, prisioneiros do acaso, um canto de lamento.<\/p>\n<p>Aos can\u00e1rios-da-terra eram reservados dois destinos: o canto, com aquela profus\u00e3o de notas agudas e repicadas ou&#8230; a luta. Esses \u00faltimos eram os \u201ccan\u00e1rios de briga\u201d.<\/p>\n<p>A luta entre dois can\u00e1rios machos era um espet\u00e1culo e era assistida por numerosa plateia, que analisava cada a\u00e7\u00e3o de ataque dos oponentes que se agrediam com os bicos e as afiadas garras. A arena era uma gaiola de reparti\u00e7\u00e3o separada ao meio por uma porta elevadi\u00e7a. O duelo come\u00e7ava com o enfrentamento em separado, cada um em um lado da imensa gaiola, com trinados eloquentes de desafio. Ap\u00f3s alguns minutos desse desafio e sob os olhares atentos da plateia ansiosa, a porta da reparti\u00e7\u00e3o era levantada. Duas situa\u00e7\u00f5es podiam ocorrer naquele momento: um dos can\u00e1rios se amedrontava e corria da briga, sendo perseguido dentro da gaiola pelo oponente. Era uma decep\u00e7\u00e3o para o seu dono. Um can\u00e1rio \u201ccorredor\u201d, como era chamado, jamais voltaria a ser treinado para a briga. Mas, no segundo caso, quando os dois can\u00e1rios aceitavam a luta, o espet\u00e1culo durava um a dois minutos e t\u00ednhamos um vencedor. Se ap\u00f3s alguns minutos a luta prosseguisse, era comum, por concord\u00e2ncia m\u00fatua dos donos, estabelecer-se o empate.<\/p>\n<p>Mas havia tamb\u00e9m, dentro do mesmo sistema, a luta entre \u201ccan\u00e1rias\u201d. Isso mesmo, as f\u00eameas tamb\u00e9m lutavam, e \u00e9 a\u00ed que entra a hist\u00f3ria que d\u00e1 t\u00edtulo \u00e0 cr\u00f4nica. Eu tive uma can\u00e1ria parda, bem maior do que as can\u00e1rias comuns, que era imbat\u00edvel nas lutas. Ganhava todas as lutas que disputava e sua fama espalhou-se pela cidade. Muitos meninos traziam can\u00e1rias de briga de outros bairros para tentarem a vit\u00f3ria contra a minha invenc\u00edvel can\u00e1ria e propunham compr\u00e1-la, troc\u00e1-la por bons can\u00e1rios de briga ou cantadores, mas eu n\u00e3o abria m\u00e3o daquela lutadora. Depois de algum tempo, ningu\u00e9m queria mais desafi\u00e1-la. Foi a\u00ed que eu resolvi dar-lhe por companheiro um can\u00e1rio-da-terra com grandes dotes de luta. Acreditava que, da uni\u00e3o dos dois, nasceriam can\u00e1rios imbat\u00edveis. Foi a minha decep\u00e7\u00e3o. Ao abrir a porta de reparti\u00e7\u00e3o para a uni\u00e3o conjugal dos dois bichinhos, a violenta \u201ccan\u00e1ria parda\u201d quase matou o pretenso companheiro. S\u00f3 n\u00e3o o matou porque os separei a tempo. S\u00f3 ent\u00e3o descobri que a brava e imbat\u00edvel \u201ccan\u00e1ria\u201d n\u00e3o era, na verdade, uma can\u00e1ria, mas uma f\u00eamea de Catatau.<\/p>\n<p>Ganhamos todas as brigas, com ela se passando por can\u00e1ria parda. Nunca houve m\u00e1-f\u00e9, nem de minha parte e nem da parte dela. Afinal, eu n\u00e3o sabia mesmo que ela era uma Catatau e quanto a ela, ningu\u00e9m lhe perguntou se ela era can\u00e1ria. Coisas da adolesc\u00eancia na d\u00e9cada de 50&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Houve um tempo em que era muito comum a cria\u00e7\u00e3o e a manuten\u00e7\u00e3o de p\u00e1ssaros em gaiolas. 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