{"id":45886,"date":"2017-11-23T19:42:27","date_gmt":"2017-11-23T22:42:27","guid":{"rendered":"http:\/\/anoticiaonline.com.br\/site\/?p=45886"},"modified":"2017-11-23T19:42:27","modified_gmt":"2017-11-23T22:42:27","slug":"dionisia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anoticiaonline.com.br\/site\/dionisia\/","title":{"rendered":"Dion\u00edsia"},"content":{"rendered":"<p>Adellunar Marge<\/p>\n<p>Quando as primeiras uvas surgiram, ainda eram uvas selvagens. Ainda n\u00e3o haviam sofrido a interfer\u00eancia da m\u00e3o dos homens que atrav\u00e9s da observa\u00e7\u00e3o, prova\u00e7\u00e3o e manuseio, aperfei\u00e7oariam variadas esp\u00e9cies, dando-lhes nomes e catalogando suas qualidades. Disseminadas principalmente pelos gregos e pelos romanos, as uvas se difundiram pela It\u00e1lia, Fran\u00e7a, Portugal, Espanha e dezenas de outras regi\u00f5es, at\u00e9 migrarem para a Am\u00e9rica. Em cada regi\u00e3o adquiria um status pr\u00f3prio, em raz\u00e3o do terreno e do clima, produzindo vinhos caracter\u00edsticos daquela regi\u00e3o e transformando-se no orgulho de cada comunidade que produzia esses vinhos. Algumas variedades de uvas s\u00e3o apenas para se degustar como frutos e outras, chamadas vin\u00edferas, s\u00e3o pr\u00f3prias para a produ\u00e7\u00e3o do vinho, com teores alco\u00f3licos vari\u00e1veis e paladares e odores tamb\u00e9m diversos. As uvas que se prestam ao consumo como frutos in natura tamb\u00e9m s\u00e3o de esp\u00e9cies variadas e mesmo n\u00e3o se prestando \u00e0 produ\u00e7\u00e3o do vinho, satisfazem o paladar dos homens. S\u00e3o as parreiras, comuns em muitas casas, como na minha.<\/p>\n<p>A parreira da minha casa tem as ra\u00edzes fincadas em meu jardim e seus ramos, subindo pela parede, j\u00e1 contornam quase que por inteiro o terra\u00e7o. Batizei-a, como Dion\u00edsia em homenagem a Dion\u00edso, o malicioso e brincalh\u00e3o deus grego da alegria e da liberdade de esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Dion\u00edsia vem a ser bisneta da antiga e frondosa parreira que vicejava na casa dos meus pais, na rua desembargador Can\u00eado, a antiga Rua do Canto de inesquec\u00edveis mem\u00f3rias. Dion\u00edsia n\u00e3o possui a nobreza das uvas de renome ou \u201cvitis-viniferas\u201d, como s\u00e3o chamadas, embora lhes guarde um parentesco, ainda que long\u00ednquo. As \u201cvitis-vin\u00edferas\u201d sim, transitam pela boca dos en\u00f3logos como Merlot, Cabernet, Malbec, as pequeninas e esnobes Pinot-noir dos afamados espumantes e tantas outras esp\u00e9cies que satisfazem o paladar dos apreciadores de vinho. A Dion\u00edsia \u00e9 simples, comum, chamada apenas de parreira ou p\u00e9 de uva, mas guarda em seus cachos negros como a noite (quando maduros) uma do\u00e7ura inigual\u00e1vel. Jamais ter\u00e1 o seu esp\u00edrito contido em um barril de madeira ou no c\u00e1rcere de uma garrafa, esperando que um apreciador dos seus dons o liberte, como disse Baudelaire em seu poema , A Alma do Vinho: \u201c&#8230;<em>homem, deserdado amigo, eu te compus neste c\u00e1rcere de vidro em que me abafas, um c\u00e2ntico de fraternidade e luz&#8230;\u201d<\/em> . Mas se Dion\u00edsia n\u00e3o se transmuda em vinho, deixa-se degustar como fruto e retribui com a do\u00e7ura dos seus cachos.<\/p>\n<p>A antiga parreira da rua do Canto que lhe deu origem teve origem em uma muda cedida gentilmente ao meu pai pelo senhor Em\u00edlio Filippini, nosso amigo e vizinho de origem italiana, h\u00e1 mais de sessenta anos. Com a cess\u00e3o da muda o senhor Filippini forneceu as instru\u00e7\u00f5es para a sua manuten\u00e7\u00e3o, instru\u00e7\u00f5es que seguimos at\u00e9 hoje para as diversas descendentes daquela primitiva muda: \u201cuva gosta de sombra no p\u00e9 e sol nas folhas e deve ser podada duas vezes por ano: uma na primeira lua nova de mar\u00e7o e a outra na primeira lua nova de agosto\u201d. Assim eu fa\u00e7o e duas vezes por ano a Dion\u00edsia d\u00e1 os seus generosos frutos, degustados n\u00e3o s\u00f3 por n\u00f3s, os donos da casa, mas por gulosos morcegos durante as noites e por sa\u00edras, sanha\u00e7os e o casal de sabi\u00e1s, ass\u00edduo freq\u00fcentador do nosso jardim.<\/p>\n<p>Os bra\u00e7os da majestosa parreira j\u00e1 ocupam a frente e uma das laterais do terra\u00e7o, enla\u00e7ando os arames estendidos com o abra\u00e7o dos seus ramos para sustentar o peso das dezenas de cachos que, antes do Natal, j\u00e1 estar\u00e3o maduros. Enquanto isso, esperamos. N\u00f3s&#8230; os p\u00e1ssaros&#8230; e os morcegos, para dividirmos a colheita.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Adellunar Marge Quando as primeiras uvas surgiram, ainda eram uvas selvagens. Ainda n\u00e3o haviam sofrido a interfer\u00eancia da m\u00e3o dos homens que atrav\u00e9s da observa\u00e7\u00e3o, prova\u00e7\u00e3o e manuseio, aperfei\u00e7oariam variadas esp\u00e9cies, dando-lhes nomes e catalogando suas qualidades. 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