{"id":24133,"date":"2017-02-02T19:57:07","date_gmt":"2017-02-02T22:57:07","guid":{"rendered":"http:\/\/anoticiaonline.com.br\/site\/?p=24133"},"modified":"2017-02-02T19:57:07","modified_gmt":"2017-02-02T22:57:07","slug":"a-cremacao-do-eremildo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/anoticiaonline.com.br\/site\/a-cremacao-do-eremildo\/","title":{"rendered":"A crema\u00e7\u00e3o do Eremildo"},"content":{"rendered":"<p>O maior medo do Eremildo era ser enterrado vivo. Por isso, seu sonho era ser cremado. Aterrorizava-o a preocupa\u00e7\u00e3o de ser enterrado e acordar com aquele mont\u00e3o de terra sobre ele. \u00c0 noite tinha pesadelos e acordava suando por todos os poros. Sua mulher o acalmava com um copo de \u00e1gua e insistia para ele tirar aquilo da cabe\u00e7a. Dizia dos avan\u00e7os da Medicina e da impossibilidade de algu\u00e9m ser sepultado vivo nos dias de hoje. Eremildo ia se acalmando com o carinho da mulher e acabava adormecendo.<\/p>\n<p>Um amigo seu, muito sacana, \u00e0s vezes brincava com ele: \u201cSe voc\u00ea acordar com aquele fogar\u00e9u da crema\u00e7\u00e3o? J\u00e1 pensou nisso?\u201d Eremildo retrucava: \u201cAh, mas com 600 ou 700 graus de temperatura num segundinho&#8230; e j\u00e1 era, n\u00e3o d\u00e1 pra sentir nada&#8230;!\u201d<\/p>\n<p>Um dia, Eremildo resolveu tomar a decis\u00e3o de procurar uma funer\u00e1ria e contratar o servi\u00e7o. Pagaria financiado para n\u00e3o pesar no bolso e poderia dormir tranquilo. Ser enterrado vivo, jamais.<\/p>\n<p>Os custos de uma crema\u00e7\u00e3o estavam l\u00e1 nas alturas, mas ap\u00f3s algumas pesquisas de pre\u00e7o, acabou contratando os servi\u00e7os da Funer\u00e1ria Fogo Amigo, uma empresa que se dizia experiente no ramo e cujo sorriso da atendente lhe inspirara confian\u00e7a. Pelo contrato, a funer\u00e1ria cuidaria de tudo, incluindo a urna, as flores, as velas e a crema\u00e7\u00e3o, \u00e9 claro. Com um pequeno acr\u00e9scimo no custo, contratou tamb\u00e9m os servi\u00e7os de algumas carpideiras para chorarem copiosamente no seu vel\u00f3rio. Vai que nenhum amigo ou familiar chorasse! N\u00e3o ia se submeter a esse vexame. A crema\u00e7\u00e3o seria feita em outra cidade, mas a fam\u00edlia receberia o potezinho de cinzas para dar a elas o fim que mais aprouvesse \u00e0 fam\u00edlia ou ao desejo do falecido.<\/p>\n<p>\u201cMas, e na hora da tal ressurrei\u00e7\u00e3o dos mortos?\u201d, ponderou um amigo. \u201cAh, n\u00e3o quero nem saber, meu medo \u00e9 ser enterrado vivo. Eu quero \u00e9 virar cinza\u201d, dizia o Eremildo.<\/p>\n<p>Eremildo ainda viveu mais um bom tempo, pois era um sujeito saud\u00e1vel e cuidava bem da sa\u00fade. Mas como acontece com todo mortal, um dia ele \u201cabotoou o palet\u00f3\u201d. Sua fam\u00edlia consternada, atendendo ao seu pedido, entregou o corpo \u00e0 funer\u00e1ria para satisfazer os desejos do morto.<\/p>\n<p>No dia do vel\u00f3rio, os amigos acorreram \u00e0 capela funer\u00e1ria para render-lhe as \u00faltimas homenagens. Falaram sobre as qualidades do Eremildo, qualidades tantas que nem ele e nem os membros da fam\u00edlia conheciam. Nestor, seu amigo de inf\u00e2ncia, tomou a palavra e, com a voz embargada, desfiou aquele ros\u00e1rio de m\u00e9ritos, o que levou todos \u00e0s l\u00e1grimas. As carpideiras, mesmo n\u00e3o entendendo as met\u00e1foras do Nestor, choraram como nunca haviam chorado (pelo menos por aquele pre\u00e7o). E o padre e o pastor recitaram trechos bel\u00edssimos das Escrituras. Preces feitas e encomendada a alma, a urna foi fechada e levada para a tal cidade onde o corpo seria cremado. Dois dias depois a fam\u00edlia recebeu pelo Sedex o potezinho com as cinzas do Eremildo. Um pote de uma porcelana um tanto quanto barata, mas com uma bela inscri\u00e7\u00e3o em latim. A vi\u00fava, ainda inconsol\u00e1vel, colocou o pote em cima do piano. Ficaria ali at\u00e9 o m\u00eas seguinte, quando a fam\u00edlia iria passar uns dias na praia e l\u00e1 as cinzas seriam jogadas ao mar. O \u00faltimo desejo do falecido.<\/p>\n<p>Na v\u00e9spera da partida, a fam\u00edlia viu pela TV o esc\u00e2ndalo da Funer\u00e1ria Fogo Amigo. A pol\u00edcia, ap\u00f3s den\u00fancias, descobriu que os safados dos donos enterravam os corpos em uma vala comum e colocavam cinzas de palha de arroz dentro dos potes. Na sede do suposto cremat\u00f3rio havia uma montanha de cinzas conseguidas de uma m\u00e1quina de beneficiar arroz que funcionava ao lado. A vi\u00fava, num acesso de raiva, jogou as cinzas no vaso sanit\u00e1rio e acionou a descarga.<\/p>\n<p>O pobre do Eremildo foi enterrado mesmo, contra o seu gosto. Se estava vivo, ningu\u00e9m jamais saber\u00e1, mas teve o consolo da companhia de dezenas de incautos como\u00a0 ele\u00a0 que haviam ca\u00eddo no golpe da Funer\u00e1ria Fogo Amigo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O maior medo do Eremildo era ser enterrado vivo. Por isso, seu sonho era ser cremado. Aterrorizava-o a preocupa\u00e7\u00e3o de ser enterrado e acordar com aquele mont\u00e3o de terra sobre ele. \u00c0 noite tinha pesadelos e acordava suando por todos os poros. 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